Até o Tucupi de Rodar na Bica! Respeite as maninha que são travesti!!

1351975127travestis370x211As travestis e mulheres trans no Brasil nunca foram consideradas sujeitos de direito. É só analisar os privilégios cisgêneros e suas atitudes transfóbicas para com essa comunidade tão marginalizada. Se a sociedade é divida em classes sociais as travestis e transexuais pertencem ao nicho das margens sociais. A transfobia é tão naturalizada e inquestionável no mundo cisegênero que travesti e mulher transexual vão ser lembradas como prostitutas, farsantes de gênero e criminosas. Os dois únicos direitos de uma travesti é o de se prostituir e o de ser morta. Mais de 90% dessa população está se prostituindo e não existem políticas públicas que mude essa realidade. Acredita-se ainda que travestis e transexuais se prostituam porque querem, e sabemos que isso é uma falácia na realidade dessas meninas. Se 90% estão se prostituindo, com certeza menos de 1% talvez se prostitua porque queira, contudo a prostituição acaba sendo uma imposição para a maioria delas. A realidade das travestis e mulheres trans é de pura desumanização, desde a externalização, que começa muito cedo, geralmente 13,14,15 anos, até suas mortes, que giram em torno dos 30 aos 35 anos. Essas meninas não são aceitas em suas famílias; são expulsas diretamente ou indiretamente.

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travestis na pistaDos depoimentos que já ouvi, li e assisti sempre nos contam a mesma coisa: que foram espancadas demais por seus pais e irmãos, foram estupradas por amigos da família, que foram expulsas de casa cedo e não tiveram aceitação de ninguém, nem da família e nem da escola. Ousar quebrar as regras de gênero cis-hetero-normativas é pagar o preço pelo resto de suas vidas. O simples ato de assumir-se travesti é proibido. A escola que devia ser um lugar de pluralidade e discussões em torno das diferenças, acaba sendo um lugar hostil para travestis e transexuais. A travesti não sofre bulliyng apenas dos colegas de turma e dos estudantes da escola em geral, ela é oprimida pela professora, pela gestora e demais funcionários. É negado a ela o direito de sua própria humanidade. Se ela se identifica como mulher e quer ter seu nome social reconhecido, a escola vai fazer questão de não reconhecer, ela não vai poder usar o banheiro feminino, será incumbida de usar o banheiro masculino, cortar os cabelos, usar o fardamento masculino e ser chamada pelo nome civil. Obviamente que ninguém aguenta tantos abusos e absurdos, ainda mais quando se tem 13, 14, 15 anos. Se a travesti não tem lugar na escola e nem na sua própria família, o único meio para ela se sustentar será a prostituição. Evidentemente que muitas vão procurar emprego, mas o mercado formal de trabalho não aceita travestis e transexuais, ainda mais com o ensino fundamental incompleto. Se é difícil para uma travesti e transexual com graduação e pós-graduação conseguirem emprego em suas áreas de formação, imagine para uma que não pode concluir os estudos como qualquer pessoa cisgênera hetero, gay ou lésbica. Então a prostituição vai ser o único caminho mais acessível de ganhar dinheiro, e para muitas dessas garotas esse caminho é doloroso, pois elas vão acabar se tornando apenas corpos sexuáveis, objetos de fetichizações e estarão suscetíveis a qualquer tipo de abuso e morte tanto da segurança do Estado como das pessoas civis. E para se manter na pista elas precisam ter o corpo da prostituição, ou seja, um estilo a la panicat: bundão, peitão, pernões, etc., e o meio mais fácil e de custo valor para se ter todos os atributos da prostituição é ter no seu corpo injetado o famoso silicone industrial. O silicone industrial não foi feito para corpo humano, é um tipo de óleo lubrificante para peças de automóveis.

Para mim quem está na faixa dos 13 aos 15 anos são crianças. E uma criança, praticamente semianalfabeta, sem família e amigos cujo destino é a prostituição, não parece comover ninguém. E muitas acabam sendo traficadas para os grandes centros metropolitanos, geralmente São Paulo.  Já ouvi de muitas pessoas cis que “travesti se prostitui porque quer e gosta”. E o mais triste da realidade de uma travesti e transexual é que elas nunca são respeitadas. É apenas um objeto estranho. Geralmente as pessoas do senso comum pensam que a travesti é um supergay que decidiu “querer ser mulher”, e a transexual, quando foge dessa ideia, é a louca que “virou mulher” (no caso de ela ser transgenitalizada). Então o processo da transfobia começa muito cedo. E uma travesti e transexual nunca tem acesso às informações sobre suas identidades, então geralmente muitas acabam reproduzindo a própria transfobia enraizada que diz que homem nasce homem e mulher nasce mulher. Muitas travestis e transexuais acreditam serem homens gays que querem ser mulher, ou seja, a reprodução do mesmo discurso transfóbico que as perseguiram desde o primeiro momento que elas falaram: “sou travesti”, “sou uma mulher trans”, “sou mulher”.

Daniela Andrade, ativista política dos Direitos Trans no Brasil, fez uma análise muito óbvia da mídia brasileira em relação às travestis e transexuais. Ela diz que as travestis aqui no Brasil morrem duas vezes; quando é assassinada e quando o próprio jornalismo mata pela segunda vez noticiando como se fosse morte de um homem gay que vestia trajes femininos, enfatizando o nome civil e se referindo como “o travesti”. E a mídia vai se lembrar de travestis e transexuais por cinco motivos:

  1. Criminalizar: somos todas criminosas;
  2. Patologizar: somos todas doentes mentais;
  3. Exotificar: somos seres “diferentes”;
  4. Ridicularizar: somos motivos de risos, piadas, deboches;
  5. Hipersexualizar: somos máquinas de fazer sexo.

E como dito, a média de vida de uma travesti é de 30 a 35 anos. E infelizmente o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo todo. Elas são assassinadas com requintes de crueldade. São estupradas, mutiladas, algumas tem a genital cortadas, levam várias facadas ou tiros e são achadas geralmente em terrenos baldios, matagais e córregos.

travesti

E depois de tudo isso, de uma realidade totalmente desumanizada, as pessoas cisgêneras se acham no direito de dizer quem somos culpada de toda a opressão. Somos os travecos, as farsantes de gênero. Simplesmente por a transfobia ser algo tão banal nesse país, artistas acabam se apropriando da nossa imagem e acabam personificando estereótipos transfóbicos. Somos o objeto em questão para motivos de risos.

Em setembro de 2012 a banda manauara Alaídenegão em parceria com o Coletivo Difusão, integrado à Rede Fora do Eixo, lançam o clipe Rodar na Bica que acaba se tornando um hit divulgado por alguns blogs nacionais de música. A banda coleciona músicas machistas, misóginas, transfóbicas, de assédio e fazem apologia ao estupro. E Rodar na Bica, que é um hit totalmente dançante, não sai perdendo, não. A transfobia é gratuita. Vejam e ouçam o videoclipe Rodar na Bica. 

Ta se arrumando
Vai se perfumar
Corre pro Armando
Tá querendo armar

Vai rodar na bica!

Compra uma cerveja
Bebe no balcão
Flerta com o gringo
Não quer dormir no chão

Vai rodar na bica!

Dança com um traveco
Quer se divertir
Pensa que é mulher
Não é mesmo assim

Para quem não sabe a Bica é uma banda de carnaval do boêmio Bar do Armando localizado no Centro de Manaus. Segundo um dos integrantes da banda diz que rodar na bica significa festejar o carnaval na Banda da Bica. A música tem duplo sentido já que o carnaval da Banda da Bica é um lugar onde se encontra todas as gozações humanas de mau gosto, como estereótipos racistas, transfóbicos, homofóbicos, machistas e misóginos. Gente branca fazendo blackface, homem cis se fantasiando de mulher, mulheres sendo assediadas, etc.

Interpretando a letra e percebe-se o chorume transfóbico gratuito. “Ta querendo armar” como se a travesti quisesse enganar os homens que ela é uma mulher, ou seja, a música diz que ela é uma farsante de gênero. E ela “vai rodar na bica!” em duplo sentido, pois será assediada por todos os homens. Depois a banda faz chacota do homem que dançou com a travesti, porém eles utilizam o termo “traveco” e ainda enfatizam que a travesti não é mulher. Como a masculinidade do homem é muito frágil, eles se importam se vão saber que ele dormiu com uma travesti ou não. No carnaval brasileiro a transfobia é muito comum. Costumam dizer para os homens cis terem cuidado, para não beberem demais, se não vão acabar pegando “um traveco”.

O termo traveco por si só é pejorativo. O teor da música mexe com a dignidade de qualquer uma travesti e transexual e elas ainda ganham de brinde uma música que desenha a imagem de que ser travesti não passa de uma piada, algo proibido e afirmam que por mais que se pense em ser uma mulher não será mesmo assim. No clipe todos dançam felizes a transfobia inquestionável. E quando você ousa a questionar o papel artístico, a transfobia gratuita e o cenário cultural local, você é acusada de estar fazendo juízo de valor, porque só você vê transfobia naquilo. E há tempos que Manaus coleciona casos entre os artistas de machismo, misoginia, transfobia e homofobia. O que é mais comum é tentarem silencia-la e fingir que nada está acontecendo, além do mais todos são amigos. E o pior que muitas mulheres estão no meio disso e silenciam o óbvio do machismo na cultura local. E eles e elas adoram dar uma de libertários, serem a favor da paz e do amor, dizem-se Guaranis-Kaiowás e adoram se apropriar da cultura negra e indígena por mais que a maioria deles sejam brancos cisgêneros e de classe média, ou seja, pessoas privilegiadas que desconhecem a vivência de qualquer minoria em direitos, principalmente a da travesti.  Costumam dizer que oprimido acaba sendo opressor quando desconhece a “dificuldade” que uma pessoa desinformada tem e no final nunca se reconhecem como privilegiados, porque para eles todo ser humano sofre e todos nós somos iguais. Afirmam que todo meu discurso é vitimista e que meu ativismo é opressor.

“O Festival Até o Tucupi chega em sua 10ª edição no ano de 2015, apresentando o tema RESPEITE AS MANINHAS! Em sua programação artística e de formação o festival procura fortalecer a representatividade e valorizar a mulher no cenário cultural amazonense e do Brasil, destacando a importância do debate da problemática do cotidiano feminino.” – Coletivo Difusão

A contradição é escancarada quando a temática é #RespeiteAsManinhas e ao mesmo tempo convidam para abrir um festival, de cunho “feminista interseccional”, uma banda transfóbica que em nenhum momento resolveu se retratar sobre o famoso hit Rodar na Bica. Ao mesmo tempo em que elas deixam a banda tocar, dá-se as maninhas trans uma pseudo-representatividade, o que vai tornando tudo mais contraditório. Para quem não sabe vários coletivos da Rede Fora do Eixo estão envolvidos em polêmicas desde exploração similar a trabalho escravo, silenciamento de vítimas e omissão de abusos, fora os acordos com os partidos PT e PCdoB. Eles vivem fazendo campanha para o governismo da Dilma, a mesma que vetou mulheres trans e travestis da Lei do Feminicídio, que sucateou as universidades federais e fechou com o agronegócio. As parcerias do Coletivo Difusão vão desde as representações estudantis pelegas como UNE, UBES, UEE e UJS a vinculações partidárias diretas com o PT e PCdoB. Eles já mantêm um diálogo direto com a prefeitura de Manaus que é PSDB, da qual sempre proporcionam apoio financeiro nos editais de cultural apara eles do Coletivo Difusão.

O Movimento de Mulheres Olga Benário é um segmento feminista dentro do PCR que é um partido que busca um revisionismo histórico da trajetória política de Josef Stálin no comando da extinta União Soviética. Eles seguem a linha ideológica marxista-lenista e se afirmam como um partido político de extrema-esquerda.

Eu já tive uma vivência no Coletivo Difusão por quase 30 dias e lá pude ensinar o que era uma identidade de gênero e meu sentimento de angústia pela música Rodar Na Bica. Explicitei para as meninas da casa que eu não tive apoio de nenhum movimento cultural de Manaus. E em nenhum momento a banda se retratou diante da minha postagem em que eu dizia o porquê que Rodar Na Bica era uma música transfóbica. Isso vai fazer um ano desde o lançamento do último álbum deles e, nenhum artista e banda local tiveram empatia pela minha causa.  Só depois pude entender o porquê que o Coletivo Difusão não deu uma visibilidade ao meu repúdio, porque Alaídenegão tem uma parceria com a Rede Fora do Eixo. E sobre a participação do Movimento de Mulheres Olga Benário (PCR) só tenho a lastimar, porque essa mesma organização partidária que combate a luta de classes, esquece que há um recorte de opressões dentro dela, como o racismo, machismo, transfobia e homofobia. E não efetuam a importância de políticas reformistas para com as minorias sociais que estão à margem por conta da cor, etnia e identidade de gênero. Passar por cima de nossas vivências é silenciar-nos. E é comum em partidos de esquerda pautar apenas as lutas de classe, querendo aboli-las, acreditando assim que os males insuperáveis da humanidade acabarão. Um negro sendo rico não vai deixar de sofrer racismo. Uma travesti rica não será isentada de transfobia.

Quebrar os paradigmas machistas é essencial para que não se perpetue uma cultura de opressão. Mas tudo tem de ser levado a sério e não como uma pseudo-causa. As causas sociais devem andar juntas com os movimentos culturais. O Amazonas tem uma tradição machista muito forte, como as histórias do boto ligadas à cultura do estupro. Os próprios movimentos artísticos incorporam isso seja nas letras das músicas ou em ações cotidianas, perpetuando, assim, a cultura machista. Dentro desses movimentos culturais o ativismo político dos movimentos sociais não é válido. E o meu ativismo político questiona todos os paradigmas entre o machismo cultural e a arte. Porém, os objetivos artísticos da cultura local tem caráter lucrativo, isto é, eles não podem quebrar parceria com banda tal só porque foram “acusados” de transfobia. As exigências dessas bandas e artistas não possui compromisso social verdadeiro, e possuem princípios pseudo-revolucionários. Walter Benjamin já dizia que as artes deviam ter um caráter revolucionário e não princípios fascistas. Eu sei que fascismo possui outro caráter que não cultural, mas, sim, ideológico. A desconstrução, reconhecimento dos preconceitos, e a construção de novos princípios não preconceituosos, é o caminho para se fazer a arte livre de estigmas negativos.

#NãoVouRodarNaBica #RespeiteAsManinhaTravesti

Não faria esse texto sem ajuda e apoio das queridinhas Maria Moraes, Jéssica Dandara, Rafaela Bastos e Tamily Frota. Grata, gatas!!!

O que é troca de sexo? O que há de errado aí?

Ensaio fotográfico

Ensaio fotográfico “Are You Are” por Lindsay Morris

Seres humanos não trocam de sexo. Isso é possível em algumas espécies de animais como do peixe-palhaço, lagarto dragão-barbudo e alguns anfíbios.

E por que humanos não trocam de sexo? Porque “sexo” possui praticamente quatro fatores determinantes: cromossomos, gônadas (ovários e/ou testículos), hormônios e os caracteres sexuais primários e secundários. Obviamente que nem todos esses fatores biológicos não podem ser mudados. Todavia, os hormônios podem ser facilmente trocados com uma terapia hormonal, as gônadas podem ser removidas mas não substituídas, os caracteres sexuais podem, até certo ponto, serem alterados com cirurgias e as não existentes podem ter seu crescimento induzido por hormônios. Já nossos cromossomos não podem ser mudados.

Eu chamo esses quatro fatores como “sexo biológico”. E nosso sexo biológico não vão definir se somos homens ou mulheres, já que somos apenas corpos. E nossas genitais também não tem o mesmo significado de sexo, até porque existem pessoas com genitais ambíguas, no caso os interssexuais. (Lembrando que hermafrodita é um termo pejorativo).

Se nossas genitais não tem nada a ver com a palavra sexo, já que sexo tem um conceito mais amplo baseado em mais ou menos quatro fatores biológicos, então quando fazemos uma cirurgia na mudança ou transformação de nossas genitais não devemos falar mudança de sexo ou troca de sexo. Pessoas transgêneras fazem cirurgias de transgenitalização, trocam, mudam ou transformam suas genitais.

Ao longo do texto pude mostrar que seres humanos não trocam de sexo pois é impossível mudarmos certas características biológicas que se enquadram dentro do nosso sexo biológico. E sexo não é a mesma coisa que genital. Enquanto ao gênero esse ainda é uma questão superdebatida em diversos campos das ciências, da qual sai do campo das chamadas Ciências Biológicas e invade as ciências sociais.

É na Filosofia que gênero, corpo e sexualidade é questionado. Judith Butler funda a Teoria Queer com a máxima de que gênero é uma construção social. Sexo e gênero pra mim possuem o mesmo significado em alguns aspectos, por exemplo quando perguntam meu sexo, e eu digo que é feminino, pois feminino é gênero e possui a mesma significação de sexo.

Aparentemente os seres humanos são os únicos que trabalham em torno do gênero. A sociedade cria gênero. Ou seja, até aqui nosso sexo biológico é diferente de nosso gênero, já que gênero possui características psicossociais. Talvez até pode ser que nosso gênero tenha uma influência dos hormônios, genes e cromossomos e outras características biológicas, mas só se completa quando nos damos conta de um mundo existente e na nossa construção a partir do meio que nos interfere. Pode-se dizer então que gênero é uma construção biopsicossocial. Com estudos filosóficos e epigenéticos, percebemos que o ser humano ainda é peculiar em relação ao gênero, sexualidade, performance e sociedade.

Are You Are por Lindsay Morris Are You Are por Lindsay Morris Are You Are por Lindsay Morris Are You Are por Lindsay Morris you_are_you_lindsay_morris_08 Are You Are por Lindsay Morris

Fotos por Lindsay Morris (http://www.lindsaycmorris.com/you-are-you)

A travesti comunista, o Estado utópico e o projeto humanidade

Uma travesti na Ditadura Militar

Historicamente dentro da cultura ocidental pessoas que divergiam da cisheteronormatividade nunca foram aceitas. Esses foram perseguidos e são até hoje, e se abre uma pauta para a banalização da morte de travestis e transexuais no Brasil.

Sabe-se que nos movimentos de esquerda que queriam abolir a ditadura militar no Brasil não se aceitavam homossexuais porque não eram dignos da revolução, quiça travestis. Então sempre foi assim dentro daqueles projetos de uma sociedade progressista e sem classes onde a liberdade reinasse. Basicamente as travestis sempre foram excluídas de qualquer grupo minoritário, seja ele socialista, feminista, negro e GLS*.

Não é de se espantar que nos governos que se autoproclamaram socialistas, essas minorias de gênero e sexualidade tenham sido perseguidas e encarceradas em campos de trabalhos forçados. Viva às ditaduras proletárias de Stalin e Fidel Castro!!! Viva! Quem pode se vangloriar de uma revolução excludente e de segregação?

Com o passar do tempo se não fossemos nós lutarmos por direitos não seriam os “revolucionários” e nem os movimentos sociais que lutariam por nós. Com o advento de novas teorias e outras lutas, começamos a ganhar espaços dentro dos movimentos sociais. Hoje em dia falamos de interseccionalidade. Mais ainda sim somos “os outros”. Os movimentos sociais ainda acreditam numa igualdade social, onde não vai haver opressões.

Se acredita que somos diferentes dos animais a partir de nossa racionalidade, que os nossos preconceitos são frutos de uma construção social, isto é, uma processo de criação de nossos ancestrais até chegar aos nossos pais que nos perpassam tais ideologias. Mas Hobbes já dizia que a natureza por si só é competitiva. Então muitas de nossas ações são reflexos de nossa espécie que tanto lutou por sobrevivência.

Os meus sonhos se findaram quando percebi que os seres humanos cristalizam certos preconceitos porque as grandes religiões proclamaram uma cultura em que firma a mulher como o segundo sexo e que homem nasce com pênis e mulher com vagina. Na Filosofia vamos questionar todos os papéis sociais e verdades estabelecidas. Se a natureza mostra que a fêmea serve pra procriação da espécie, os humanos vão ter que se questionar todo o patriarcado para não perpetuarem a misoginia contra a mulher e deixá-la assumir os mesmos papéis sociais que os dos homens. Se a cultura humana diz que o homem fez isso e aquilo outro, conquistou isso e tudo mais é porque não deram lugar para as mulheres. Se até Deus é uma alcunha masculina e ele envia o seu próprio filho para a Terra, percebemos que as mulheres não tem muita representatividade no cristianismo.

Já imaginou alguma instituição baseada em princípios anti-machistas? Eu já consegui mas com o tempo ele se modifica e se corrompe. Parece que o homem cristaliza o seu machismo de fato, e ele pode ser de esquerda ou anarquista, mas pergunte dele se o mesmo assumiria uma relação com uma travesti e se esse seria o símbolo de um novo modelo de amor revolucionário. Quase impossível. Impossível também criar uma corrente ou um partido de esquerda que deixasse de fora os homens machistas. Com a realidade atual é mais possível mulheres cis ou trans fundarem qualquer partido sem ajuda de um homem cis hétero esquerdo-macho. Qualquer corrente ou partido esquerdista vai ter mais de um esquerdo-macho.

Lembrando que todos os líderes de qualquer revolução socialista foram homens cis brancos. Não houve representatividade negra. As pessoas negras estavam trabalhando ou sendo escravizadas. Se a mulher cis branca questionou o seu papel dentro do patriarcado e buscou uma igualdade de gênero, a mulher cis negra já estava trabalhando e sendo mãe e pai ao mesmo tempo. E as travestis? Nossa! Essas foram excluídas de tudo que é classe social. Basicamente travesti não tem cidadania. Essa é expula das famílias ricas e pobres, brancas e negras. Pois ser travesti é um crime muito hediondo digno de sujeição às margens das margens sociais.

Então se tiver que acontecer uma revolução ela vai ter que se estabelecer como uma ditadura contra o patriarcado. Porém, para mim isso é impossível. O que ocorre atualmente no cenário brasileiro é uma revolução moral sem artilharia. A esquerda finalmente adotou as causas das minorias de gênero e sexualidade. Agora pode se ver uma travesti comunista. Agora acreditar num Estado democrático de direito, sem classes sociais e opressões, para mim é um projeto utópico. Não posso dizer que isso seria impossível mas a humanidade teria que evoluir em cima de uma construção social com princípios humanistas e igualitários. O projeto de humanidade atual já deu erro desde quando ele começou com o princípio de superioridade aos demais animais e natureza, e os próprios homens nunca conseguiram aceitar as diferenças e se degladiam até hoje. Todo pensamento que compreende a ação de se construir uma sociedade mais justa e igualitária se corromperá com as atitudes humanas.

Infância proibida e o T da questão

Pure heroin

Há tempos desde o início da minha transição minhas amigas e amigos me perguntam o por que do meu mau humor. Eu, Diana, acho que sempre fui mal humorada. Pra não dizer que meu humor é “negro” prefiro dizer que ele é gótico ou ácido.

Posso dizer que tive a pior das infâncias. Não falo que foi a pior das piores. Mas eu nunca pude ser quem eu era. Sofri N’s bullyings por ser um* garoto* diferente da cis-hetero-normatividade. Eu não cumpria o papel social de um menino. Meus pais cobravam de mim, por pressão de terceiros, a masculinidade do homem viril. No início não se entende muita coisa ou não se entende nada sobre quem realmente somos.

Eu me sentia uma garota desde que eu me entendia por gente. Eu devia ter uns 5 anos quando eu vim dar conta que existia uma realidade ao meu redor, por mais que eu duvidasse dela. Se nem meu papa e minha maman me entendiam quem dirá os outros parentes e estranhos. Maman e papa deviam ter vergonha de mim. Apanhei da maman algumas vezes ou várias vezes [não quero recordar] por parecer um “viadinho”. Ela se questionava o tempo todo onde tinha errado. O papa disse que à época ela acabou culpando-o por eu ser “assim”.

Eu tinha vergonha de sair de casa com a maman por medo de ela ouvir alguém me xingar. Ela podia até me defender, mas quando estava ela e eu apenas, me brigava sem parar, culpava-me. Então eu já não contava com o apoio dela nem do papa. Quando os outros implicavam comigo no colégio eu não podia falar pros meus pais porque eu era a culpada. Então eu percebi que realmente eu estava sozinha no mundo, até mesmo sem Deus. Eu pedia pra Deus me “endireitar”, tornar-me homem mas ele não ouvia minhas preces. Nesse meio tempo dos 5 aos 13 anos de idade ocorreu de eu tentar me matar algumas vezes por não me parecer com as meninas, as minhas amigas. Isso doía muito. Teve algumas vezes que eu tentei cortar o meu pênis mas eu sempre desistia.

Minha infância até a pré-adolescência foi povoada por fadas, elfos, dragões, príncipes, princesas, rainhas, duendes, sereias e heróis. Esses personagens de contos de fadas e histórias em quadrinhos eram a minha diversão. Eu acreditava realmente que as fadas nunca me abandonariam se eu não deixasse de acreditar nelas. Porém, eu cresci e com meu niilismo tudo se esgotou.

Desde criança até a fase adolescente fui acompanhada por duas babás. Eu conseguia contar algumas coisas pra elas. Elas me deixavam experimentar, às escondidas da minha maman, o universo feminino. Eu usava as camisolas e os sapatos da maman, colocava um lençol ou uma toalha de banho na minha cabeça e fingia ter cabelos longos. As minhas babás contaram que eu tinha uma repulsa das coisas tidas como masculinas e que eu pensava ser uma menina. Isso era eu com meus 3/4 anos.

Eu realmente sentia estar num corpo errado porque as pessoas o tempo todo diziam que eu não podia ser mulher já que eu nasci homem. Eu só vim questionar realmente minha identidade de gênero no meu colegial. Fui lendo aqueles textos científicos que patologizavam a transexualidade. E realmente eu acreditava naquilo tudo: que homem nasce com pênis e mulher com vagina. Quando entrei pra Filosofia na Universidade Federal do Amazonas meus horizontes foi mudando aos poucos, mas não foi por conta da faculdade mas pelo contato que eu tive com a militância de outras mulheres trans e travestis na web. Minhas primeiras inspirações foram Daniela Andrade, Sofia Favero e Maria Clara Araújo, aí eu resolvi assumir minha identidade de gênero como mulher trans também. Depois fui conhecendo dentro da Filosofia a corrente da Teoria Queer que questiona seriamente gênero, sexualidade e corpos. As meninas ativistas trans já tinham me dito que não se nasce homem ou mulher, mas que torna-se. Não nascemos no corpo errado.

Se tem uma coisa que fui desde criança foi “carente”, nunca ganhei amor dos meus pais como realmente eu queria. Eu não era o* filho* dos sonhos deles. Então eu pensei que era amaldiçoada por ser tão infeliz. Às vezes ainda penso isso quando tudo dar errado pra mim. Meus pais gostavam de mim só que de uma forma diferente. Eu sei que eles me amam, mas devem temer muitas coisas por que sou transgênera. Então tive que me dar com a rejeição desde a infância até hoje. Atualmente piorou. Eu não tive a mocidade dos sonhos. Eu não participei da vidas das garotas, por mais que eu detestasse muitas coisas que elas assumiam devido às imposições do patriarcado. Logo sempre fui uma garota diferente. Feminista? Não sei. Feminista hoje? Sim.

As duas faces de estar na transição é que não sabemos quando realmente transformamos nossos corpos. Ao menos pra mim tudo está imperfeito. Isso fica evidente com o tratamento que recebo das pessoas cisgêneras. Elas estão o tempo todo me tratando no masculino. Não sei se realmente estão me vendo como homem. Estar na fase de hormônio-terapia é como estar numa eterna TPM. Fico muito sensível ao modo como me tratam e ao mundo como ele é. O pessimismo sempre esteve comigo nas piores fases da minha vida. Depressão e melancolia idem. E tudo é causado pelos hormônios e pela pressão social (diga-se ‘transfobia’).

Digo que as rejeições aumentaram porque sempre vou ser o fruto proibido que nem a maçã que causou a expulsão de Adão e Eva do Jardim do Éden. Uma das coisas que às vezes ainda consigo criar são expectativas com os homens cis-héteros. Se você se apaixonar por qualquer um homem cis-hétero pode contar que você será humilhada ou ele irá querer tê-la como mais uma amiga dele. E você observa que esse mesmo cara é pegador. Ele pega todas as mulheres que ele considera de verdade. A mulher com vagina serve para afirmar a heterossexualidade do macho-alfa. Ele pode sentir atração por você mas ele não vai querer sujar a reputação máscula de machão dele. Se ele não souber que você é trans ele vai ser o mais romântico dos homens. Quando ele descobrir que você é trans ele vai te tratar como amiga, ou como objeto sexual ou vai te deletar da vida dele. Se ele conhecer uma amiga cis tua ele vai ficar afim dela. Aí você vai perceber que não será bem sucedida em quaisquer relações com esses tipos de homem. Infelizmente eles estão em todos os lugares. São artistas, esquerdistas, ativistas sociais, libertários, anarquistas, etc. Quando você pensar que um deles tem mente aberta, então você é rejeitada pela milésima vez só porque você é trans. Os homens desejam nossos corpos mas se bloqueiam quando o machismo pessoal deles e dos outros os fazem repensarem nos princípios cissexistas sociais e nos seus status quo de homem garanhão e viril. É como eu digo, a heterossexualidade desses caras devem ser provadas com uma vagina de fábrica e não o contrário, ou seja, uma mulher com pênis ou com uma neovagina.

A práxis cisnormativa exclui as pessoas trans da sociedade, principalmente as travestis e mulheres trans. A sociedade vai dizer que você não é mulher e que tampouco tem direito ao amor, que você tem apenas o direito de se prostituir e ser morta. O que perpassa além disso nas nossas vivências é uma infância reprimida, depressão, solidão, transfobia, hipersexualização dos nossos corpos e constante rejeições.

Eu, Diana Brasilis, apesar de não ter a beleza cisgênera, e sim uma androginia natural, sou elogiada não só por homens, mas por mulheres. Obviamente que quem não me conhece vai dizer que sou um “rapaz” muito bonito quando eles percebem em mim essa minha androginia estética latente, e eu estou falando das pessoas comuns. Já os homens héteros ficam me objetificando e desejando me ter nem que seja por alguns minutos, contudo o machismo não vai deixá-los seguir em frente com qualquer tipo de desejo que eles tiverem por mim. Obviamente que eles me veem como mulher só que eles pensam que eu seja um homem supergay que quer ser mulher. A sociedade diz que a travesti são homens gays montados. A condição trans pesa na hora de assumir qualquer desejo por mim em público. Na internet eles pedem nudes ou mandam nudes e marcam sexo às escondidas. Toda essa minha vivência condicionada em rejeições mais à TPM dos homônimos e ao mundo como tal faz com que eu entre em depressões surreais. Logo vou ser a mais antipática, temperamental, deprê das amigas.

A crise do estilo de vida no mundo contemporâneo: a boa vida e como devemos vivê-la.

Filosofonet

[audio https://dl.dropboxusercontent.com/u/19350165/tocandoemfrente.mp3]

Por Michel Aires de Souza

        No mundo contemporâneo o estilo de vida entrou em crise. Os valores da modernidade, as tradições, as crenças, as verdades e as formas de conduta se relativizaram.  Essa relativização aconteceu por causa do avanço do progresso do pensamento e do conhecimento técnico e científico.  Vivemos numa época onde as instituições e os códigos sociais e morais não podem mais determinar os modos de vida. Não há mais grupos de referências que poderiam servir de modelos para guiar nossa existência.  Nosso estilo de vida não depende mais de uma autoridade, de uma prática tradicional, de uma meta transcendente ou de um dogma religioso. O lado sombrio disso, segundo Anthonny Giddens, é o aumento das dependências e compulsões, como o alcoolismo e as drogas.  “Podemos ser viciados em trabalho, em exercícios, comida, sexo – ou até em amor. Isso ocorre porque essas…

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O que é a androginia?

aladin  Androgia

Androginia refere-se a dois conceitos: a mistura de características femininas e masculinas em um único ser, ou uma forma de descrever algo que não é nem masculino nem feminino.
Pessoa que se sente com uma combinação de características culturais quer masculinas (andro) quer femininas (gyne). Isto quer dizer que uma pessoa andrógina identifica-se e define-se como tendo níveis variáveis de sentimentos e traços comportamentais que são quer masculinos quer femininos.

Ontologicamente as entidades “homem” e “mulher” construíram-se como uma dualidade. Vemos a sociedade falar em termos como macho alfa e mulher de verdade. Esses termos servem para distanciar as identidades e normatizá-las para que apenas grupos seletos de pessoas sejam conhecidos como tal – sendo isso uma enorme falácia, claro, porque é homem ou mulher quem se declara como tal. Para os psicólogos, médicos e até estilistas, a androginia é sobretudo um fenômeno cultural, nada tem a ver com a bissexualidade ou o homossexualismo.

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A empresária e especialista de moda, Costanza Pascolato, há anos analisa a influência da androginia no estilismo. “A moda contemporânea não para de brincar com as diferenças entre os gêneros. Com isso expressamos nossas ideias mutantes sobre o que é ser homem ou mulher”, escreveu em 1988, num artigo de jornal. Hoje ela acrescenta: “Um ligeiro toque de ambiguidade aumenta o lado sensual das pessoas. O masculino e o feminino exagerados são menos sexy. Há uma qualidade misteriosa em Marlene Dietrich e Greta Garbo, que vem em parte da sugestão de virilidade lá no fundo de sua personalidade”.

É possível que estejamos convivendo, atualmente, com uma acentuada tendência à alteridade — conceito desenvolvido pelo psicoterapeuta Carlos Byington, de São Paulo, um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica.“O dinamismo da alteridade consiste na interação igualitária das polaridades”, escreveu em obscuro dialeto profissional no livro Dimensões simbólicas da personalidade.

O ensaísta e crítico Ismail Xavier, professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, lembra dois filmes marcantes: Morte em Veneza, do italiano Luchino Visconti, baseado numa novela do escritor alemão Thomas Mann. “O adolescente por quem o velho compositor (o ator inglês Dirk Bogarde) se apaixona, personifica o andrógino enquanto figura de contemplação estética ambígua”, analisa Xavier. O outro filme é Teorema, do também italiano Pier Paolo Pasolini. Uma espécie de anjo exterminador (o ator Terence Stamp) seduz todos os membros de uma família burguesa conservadora. Um dos marcos da literatura moderna, Orlando, da instigante escritora inglesa Virginia Woolf, a longa narração da vida de uma personagem ora homem, ora mulher, foi levado ao cinema pela diretora inglesa Sally Potter. Convém não perder, pois qualquer que seja o resultado, o filme será mais fácil de ver do que o livro de ler.

O inconsciente humano sempre conviveu com uma certa confusão entre os dois gêneros. Os escultores gregos clássicos fundiam feminino e masculino de tal forma que, não raro, os restauradores modernos equivocaram-se reconstruindo efebos (rapazes adolescentes) como se fossem moças. Nos antigos baixos-relevos da Índia, da mesma forma, quase não há separação por sexo; afinal, divindades precisam ser completas, não teria sentido empobrecê-las fazendo-as masculinas ou femininas. Os pintores também criaram mulheres e homens com jeito andrógino. “Todas as figuras masculinas do clássico italiano Leonardo Da Vinci (1452-1519) são femininas e até mereceram um estudo de Freud”, lembra a pintora e professora de desenho Ely Bueno, de São Paulo. “Os homens e mulheres de Marc Chagall (1877-1985) apresentam ambiguidades de gênero. O contemporâneo americano Andy Warhol (1927-1987) fez uma Marilyn Monroe que é ele próprio. Hoje, o ótimo cuiabano Humberto Spíndola faz figuras andróginas. São apenas alguns poucos exemplos”, garante a pintora.

Na indústria da moda, os modelos andróginos têm sido requisitados para protagonizar campanhas de grandes grifes. Em alguns casos, os modelos posam com um look que reproduz tanto a coleção masculina quanto a feminina.