O que é troca de sexo? O que há de errado aí?

Ensaio fotográfico

Ensaio fotográfico “Are You Are” por Lindsay Morris

Seres humanos não trocam de sexo. Isso é possível em algumas espécies de animais como do peixe-palhaço, lagarto dragão-barbudo e alguns anfíbios.

E por que humanos não trocam de sexo? Porque “sexo” possui praticamente quatro fatores determinantes: cromossomos, gônadas (ovários e/ou testículos), hormônios e os caracteres sexuais primários e secundários. Obviamente que nem todos esses fatores biológicos não podem ser mudados. Todavia, os hormônios podem ser facilmente trocados com uma terapia hormonal, as gônadas podem ser removidas mas não substituídas, os caracteres sexuais podem, até certo ponto, serem alterados com cirurgias e as não existentes podem ter seu crescimento induzido por hormônios. Já nossos cromossomos não podem ser mudados.

Eu chamo esses quatro fatores como “sexo biológico”. E nosso sexo biológico não vão definir se somos homens ou mulheres, já que somos apenas corpos. E nossas genitais também não tem o mesmo significado de sexo, até porque existem pessoas com genitais ambíguas, no caso os interssexuais. (Lembrando que hermafrodita é um termo pejorativo).

Se nossas genitais não tem nada a ver com a palavra sexo, já que sexo tem um conceito mais amplo baseado em mais ou menos quatro fatores biológicos, então quando fazemos uma cirurgia na mudança ou transformação de nossas genitais não devemos falar mudança de sexo ou troca de sexo. Pessoas transgêneras fazem cirurgias de transgenitalização, trocam, mudam ou transformam suas genitais.

Ao longo do texto pude mostrar que seres humanos não trocam de sexo pois é impossível mudarmos certas características biológicas que se enquadram dentro do nosso sexo biológico. E sexo não é a mesma coisa que genital. Enquanto ao gênero esse ainda é uma questão superdebatida em diversos campos das ciências, da qual sai do campo das chamadas Ciências Biológicas e invade as ciências sociais.

É na Filosofia que gênero, corpo e sexualidade é questionado. Judith Butler funda a Teoria Queer com a máxima de que gênero é uma construção social. Sexo e gênero pra mim possuem o mesmo significado em alguns aspectos, por exemplo quando perguntam meu sexo, e eu digo que é feminino, pois feminino é gênero e possui a mesma significação de sexo.

Aparentemente os seres humanos são os únicos que trabalham em torno do gênero. A sociedade cria gênero. Ou seja, até aqui nosso sexo biológico é diferente de nosso gênero, já que gênero possui características psicossociais. Talvez até pode ser que nosso gênero tenha uma influência dos hormônios, genes e cromossomos e outras características biológicas, mas só se completa quando nos damos conta de um mundo existente e na nossa construção a partir do meio que nos interfere. Pode-se dizer então que gênero é uma construção biopsicossocial. Com estudos filosóficos e epigenéticos, percebemos que o ser humano ainda é peculiar em relação ao gênero, sexualidade, performance e sociedade.

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Fotos por Lindsay Morris (http://www.lindsaycmorris.com/you-are-you)

A travesti comunista, o Estado utópico e o projeto humanidade

Uma travesti na Ditadura Militar

Historicamente dentro da cultura ocidental pessoas que divergiam da cisheteronormatividade nunca foram aceitas. Esses foram perseguidos e são até hoje, e se abre uma pauta para a banalização da morte de travestis e transexuais no Brasil.

Sabe-se que nos movimentos de esquerda que queriam abolir a ditadura militar no Brasil não se aceitavam homossexuais porque não eram dignos da revolução, quiça travestis. Então sempre foi assim dentro daqueles projetos de uma sociedade progressista e sem classes onde a liberdade reinasse. Basicamente as travestis sempre foram excluídas de qualquer grupo minoritário, seja ele socialista, feminista, negro e GLS*.

Não é de se espantar que nos governos que se autoproclamaram socialistas, essas minorias de gênero e sexualidade tenham sido perseguidas e encarceradas em campos de trabalhos forçados. Viva às ditaduras proletárias de Stalin e Fidel Castro!!! Viva! Quem pode se vangloriar de uma revolução excludente e de segregação?

Com o passar do tempo se não fossemos nós lutarmos por direitos não seriam os “revolucionários” e nem os movimentos sociais que lutariam por nós. Com o advento de novas teorias e outras lutas, começamos a ganhar espaços dentro dos movimentos sociais. Hoje em dia falamos de interseccionalidade. Mais ainda sim somos “os outros”. Os movimentos sociais ainda acreditam numa igualdade social, onde não vai haver opressões.

Se acredita que somos diferentes dos animais a partir de nossa racionalidade, que os nossos preconceitos são frutos de uma construção social, isto é, uma processo de criação de nossos ancestrais até chegar aos nossos pais que nos perpassam tais ideologias. Mas Hobbes já dizia que a natureza por si só é competitiva. Então muitas de nossas ações são reflexos de nossa espécie que tanto lutou por sobrevivência.

Os meus sonhos se findaram quando percebi que os seres humanos cristalizam certos preconceitos porque as grandes religiões proclamaram uma cultura em que firma a mulher como o segundo sexo e que homem nasce com pênis e mulher com vagina. Na Filosofia vamos questionar todos os papéis sociais e verdades estabelecidas. Se a natureza mostra que a fêmea serve pra procriação da espécie, os humanos vão ter que se questionar todo o patriarcado para não perpetuarem a misoginia contra a mulher e deixá-la assumir os mesmos papéis sociais que os dos homens. Se a cultura humana diz que o homem fez isso e aquilo outro, conquistou isso e tudo mais é porque não deram lugar para as mulheres. Se até Deus é uma alcunha masculina e ele envia o seu próprio filho para a Terra, percebemos que as mulheres não tem muita representatividade no cristianismo.

Já imaginou alguma instituição baseada em princípios anti-machistas? Eu já consegui mas com o tempo ele se modifica e se corrompe. Parece que o homem cristaliza o seu machismo de fato, e ele pode ser de esquerda ou anarquista, mas pergunte dele se o mesmo assumiria uma relação com uma travesti e se esse seria o símbolo de um novo modelo de amor revolucionário. Quase impossível. Impossível também criar uma corrente ou um partido de esquerda que deixasse de fora os homens machistas. Com a realidade atual é mais possível mulheres cis ou trans fundarem qualquer partido sem ajuda de um homem cis hétero esquerdo-macho. Qualquer corrente ou partido esquerdista vai ter mais de um esquerdo-macho.

Lembrando que todos os líderes de qualquer revolução socialista foram homens cis brancos. Não houve representatividade negra. As pessoas negras estavam trabalhando ou sendo escravizadas. Se a mulher cis branca questionou o seu papel dentro do patriarcado e buscou uma igualdade de gênero, a mulher cis negra já estava trabalhando e sendo mãe e pai ao mesmo tempo. E as travestis? Nossa! Essas foram excluídas de tudo que é classe social. Basicamente travesti não tem cidadania. Essa é expula das famílias ricas e pobres, brancas e negras. Pois ser travesti é um crime muito hediondo digno de sujeição às margens das margens sociais.

Então se tiver que acontecer uma revolução ela vai ter que se estabelecer como uma ditadura contra o patriarcado. Porém, para mim isso é impossível. O que ocorre atualmente no cenário brasileiro é uma revolução moral sem artilharia. A esquerda finalmente adotou as causas das minorias de gênero e sexualidade. Agora pode se ver uma travesti comunista. Agora acreditar num Estado democrático de direito, sem classes sociais e opressões, para mim é um projeto utópico. Não posso dizer que isso seria impossível mas a humanidade teria que evoluir em cima de uma construção social com princípios humanistas e igualitários. O projeto de humanidade atual já deu erro desde quando ele começou com o princípio de superioridade aos demais animais e natureza, e os próprios homens nunca conseguiram aceitar as diferenças e se degladiam até hoje. Todo pensamento que compreende a ação de se construir uma sociedade mais justa e igualitária se corromperá com as atitudes humanas.

Infância proibida e o T da questão

Pure heroin

Há tempos desde o início da minha transição minhas amigas e amigos me perguntam o por que do meu mau humor. Eu, Diana, acho que sempre fui mal humorada. Pra não dizer que meu humor é “negro” prefiro dizer que ele é gótico ou ácido.

Posso dizer que tive a pior das infâncias. Não falo que foi a pior das piores. Mas eu nunca pude ser quem eu era. Sofri N’s bullyings por ser um* garoto* diferente da cis-hetero-normatividade. Eu não cumpria o papel social de um menino. Meus pais cobravam de mim, por pressão de terceiros, a masculinidade do homem viril. No início não se entende muita coisa ou não se entende nada sobre quem realmente somos.

Eu me sentia uma garota desde que eu me entendia por gente. Eu devia ter uns 5 anos quando eu vim dar conta que existia uma realidade ao meu redor, por mais que eu duvidasse dela. Se nem meu papa e minha maman me entendiam quem dirá os outros parentes e estranhos. Maman e papa deviam ter vergonha de mim. Apanhei da maman algumas vezes ou várias vezes [não quero recordar] por parecer um “viadinho”. Ela se questionava o tempo todo onde tinha errado. O papa disse que à época ela acabou culpando-o por eu ser “assim”.

Eu tinha vergonha de sair de casa com a maman por medo de ela ouvir alguém me xingar. Ela podia até me defender, mas quando estava ela e eu apenas, me brigava sem parar, culpava-me. Então eu já não contava com o apoio dela nem do papa. Quando os outros implicavam comigo no colégio eu não podia falar pros meus pais porque eu era a culpada. Então eu percebi que realmente eu estava sozinha no mundo, até mesmo sem Deus. Eu pedia pra Deus me “endireitar”, tornar-me homem mas ele não ouvia minhas preces. Nesse meio tempo dos 5 aos 13 anos de idade ocorreu de eu tentar me matar algumas vezes por não me parecer com as meninas, as minhas amigas. Isso doía muito. Teve algumas vezes que eu tentei cortar o meu pênis mas eu sempre desistia.

Minha infância até a pré-adolescência foi povoada por fadas, elfos, dragões, príncipes, princesas, rainhas, duendes, sereias e heróis. Esses personagens de contos de fadas e histórias em quadrinhos eram a minha diversão. Eu acreditava realmente que as fadas nunca me abandonariam se eu não deixasse de acreditar nelas. Porém, eu cresci e com meu niilismo tudo se esgotou.

Desde criança até a fase adolescente fui acompanhada por duas babás. Eu conseguia contar algumas coisas pra elas. Elas me deixavam experimentar, às escondidas da minha maman, o universo feminino. Eu usava as camisolas e os sapatos da maman, colocava um lençol ou uma toalha de banho na minha cabeça e fingia ter cabelos longos. As minhas babás contaram que eu tinha uma repulsa das coisas tidas como masculinas e que eu pensava ser uma menina. Isso era eu com meus 3/4 anos.

Eu realmente sentia estar num corpo errado porque as pessoas o tempo todo diziam que eu não podia ser mulher já que eu nasci homem. Eu só vim questionar realmente minha identidade de gênero no meu colegial. Fui lendo aqueles textos científicos que patologizavam a transexualidade. E realmente eu acreditava naquilo tudo: que homem nasce com pênis e mulher com vagina. Quando entrei pra Filosofia na Universidade Federal do Amazonas meus horizontes foi mudando aos poucos, mas não foi por conta da faculdade mas pelo contato que eu tive com a militância de outras mulheres trans e travestis na web. Minhas primeiras inspirações foram Daniela Andrade, Sofia Favero e Maria Clara Araújo, aí eu resolvi assumir minha identidade de gênero como mulher trans também. Depois fui conhecendo dentro da Filosofia a corrente da Teoria Queer que questiona seriamente gênero, sexualidade e corpos. As meninas ativistas trans já tinham me dito que não se nasce homem ou mulher, mas que torna-se. Não nascemos no corpo errado.

Se tem uma coisa que fui desde criança foi “carente”, nunca ganhei amor dos meus pais como realmente eu queria. Eu não era o* filho* dos sonhos deles. Então eu pensei que era amaldiçoada por ser tão infeliz. Às vezes ainda penso isso quando tudo dar errado pra mim. Meus pais gostavam de mim só que de uma forma diferente. Eu sei que eles me amam, mas devem temer muitas coisas por que sou transgênera. Então tive que me dar com a rejeição desde a infância até hoje. Atualmente piorou. Eu não tive a mocidade dos sonhos. Eu não participei da vidas das garotas, por mais que eu detestasse muitas coisas que elas assumiam devido às imposições do patriarcado. Logo sempre fui uma garota diferente. Feminista? Não sei. Feminista hoje? Sim.

As duas faces de estar na transição é que não sabemos quando realmente transformamos nossos corpos. Ao menos pra mim tudo está imperfeito. Isso fica evidente com o tratamento que recebo das pessoas cisgêneras. Elas estão o tempo todo me tratando no masculino. Não sei se realmente estão me vendo como homem. Estar na fase de hormônio-terapia é como estar numa eterna TPM. Fico muito sensível ao modo como me tratam e ao mundo como ele é. O pessimismo sempre esteve comigo nas piores fases da minha vida. Depressão e melancolia idem. E tudo é causado pelos hormônios e pela pressão social (diga-se ‘transfobia’).

Digo que as rejeições aumentaram porque sempre vou ser o fruto proibido que nem a maçã que causou a expulsão de Adão e Eva do Jardim do Éden. Uma das coisas que às vezes ainda consigo criar são expectativas com os homens cis-héteros. Se você se apaixonar por qualquer um homem cis-hétero pode contar que você será humilhada ou ele irá querer tê-la como mais uma amiga dele. E você observa que esse mesmo cara é pegador. Ele pega todas as mulheres que ele considera de verdade. A mulher com vagina serve para afirmar a heterossexualidade do macho-alfa. Ele pode sentir atração por você mas ele não vai querer sujar a reputação máscula de machão dele. Se ele não souber que você é trans ele vai ser o mais romântico dos homens. Quando ele descobrir que você é trans ele vai te tratar como amiga, ou como objeto sexual ou vai te deletar da vida dele. Se ele conhecer uma amiga cis tua ele vai ficar afim dela. Aí você vai perceber que não será bem sucedida em quaisquer relações com esses tipos de homem. Infelizmente eles estão em todos os lugares. São artistas, esquerdistas, ativistas sociais, libertários, anarquistas, etc. Quando você pensar que um deles tem mente aberta, então você é rejeitada pela milésima vez só porque você é trans. Os homens desejam nossos corpos mas se bloqueiam quando o machismo pessoal deles e dos outros os fazem repensarem nos princípios cissexistas sociais e nos seus status quo de homem garanhão e viril. É como eu digo, a heterossexualidade desses caras devem ser provadas com uma vagina de fábrica e não o contrário, ou seja, uma mulher com pênis ou com uma neovagina.

A práxis cisnormativa exclui as pessoas trans da sociedade, principalmente as travestis e mulheres trans. A sociedade vai dizer que você não é mulher e que tampouco tem direito ao amor, que você tem apenas o direito de se prostituir e ser morta. O que perpassa além disso nas nossas vivências é uma infância reprimida, depressão, solidão, transfobia, hipersexualização dos nossos corpos e constante rejeições.

Eu, Diana Brasilis, apesar de não ter a beleza cisgênera, e sim uma androginia natural, sou elogiada não só por homens, mas por mulheres. Obviamente que quem não me conhece vai dizer que sou um “rapaz” muito bonito quando eles percebem em mim essa minha androginia estética latente, e eu estou falando das pessoas comuns. Já os homens héteros ficam me objetificando e desejando me ter nem que seja por alguns minutos, contudo o machismo não vai deixá-los seguir em frente com qualquer tipo de desejo que eles tiverem por mim. Obviamente que eles me veem como mulher só que eles pensam que eu seja um homem supergay que quer ser mulher. A sociedade diz que a travesti são homens gays montados. A condição trans pesa na hora de assumir qualquer desejo por mim em público. Na internet eles pedem nudes ou mandam nudes e marcam sexo às escondidas. Toda essa minha vivência condicionada em rejeições mais à TPM dos homônimos e ao mundo como tal faz com que eu entre em depressões surreais. Logo vou ser a mais antipática, temperamental, deprê das amigas.

A crise do estilo de vida no mundo contemporâneo: a boa vida e como devemos vivê-la.

Filosofonet

[audio https://dl.dropboxusercontent.com/u/19350165/tocandoemfrente.mp3]

Por Michel Aires de Souza

        No mundo contemporâneo o estilo de vida entrou em crise. Os valores da modernidade, as tradições, as crenças, as verdades e as formas de conduta se relativizaram.  Essa relativização aconteceu por causa do avanço do progresso do pensamento e do conhecimento técnico e científico.  Vivemos numa época onde as instituições e os códigos sociais e morais não podem mais determinar os modos de vida. Não há mais grupos de referências que poderiam servir de modelos para guiar nossa existência.  Nosso estilo de vida não depende mais de uma autoridade, de uma prática tradicional, de uma meta transcendente ou de um dogma religioso. O lado sombrio disso, segundo Anthonny Giddens, é o aumento das dependências e compulsões, como o alcoolismo e as drogas.  “Podemos ser viciados em trabalho, em exercícios, comida, sexo – ou até em amor. Isso ocorre porque essas…

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O que é a androginia?

aladin  Androgia

Androginia refere-se a dois conceitos: a mistura de características femininas e masculinas em um único ser, ou uma forma de descrever algo que não é nem masculino nem feminino.
Pessoa que se sente com uma combinação de características culturais quer masculinas (andro) quer femininas (gyne). Isto quer dizer que uma pessoa andrógina identifica-se e define-se como tendo níveis variáveis de sentimentos e traços comportamentais que são quer masculinos quer femininos.

Ontologicamente as entidades “homem” e “mulher” construíram-se como uma dualidade. Vemos a sociedade falar em termos como macho alfa e mulher de verdade. Esses termos servem para distanciar as identidades e normatizá-las para que apenas grupos seletos de pessoas sejam conhecidos como tal – sendo isso uma enorme falácia, claro, porque é homem ou mulher quem se declara como tal. Para os psicólogos, médicos e até estilistas, a androginia é sobretudo um fenômeno cultural, nada tem a ver com a bissexualidade ou o homossexualismo.

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A empresária e especialista de moda, Costanza Pascolato, há anos analisa a influência da androginia no estilismo. “A moda contemporânea não para de brincar com as diferenças entre os gêneros. Com isso expressamos nossas ideias mutantes sobre o que é ser homem ou mulher”, escreveu em 1988, num artigo de jornal. Hoje ela acrescenta: “Um ligeiro toque de ambiguidade aumenta o lado sensual das pessoas. O masculino e o feminino exagerados são menos sexy. Há uma qualidade misteriosa em Marlene Dietrich e Greta Garbo, que vem em parte da sugestão de virilidade lá no fundo de sua personalidade”.

É possível que estejamos convivendo, atualmente, com uma acentuada tendência à alteridade — conceito desenvolvido pelo psicoterapeuta Carlos Byington, de São Paulo, um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica.“O dinamismo da alteridade consiste na interação igualitária das polaridades”, escreveu em obscuro dialeto profissional no livro Dimensões simbólicas da personalidade.

O ensaísta e crítico Ismail Xavier, professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, lembra dois filmes marcantes: Morte em Veneza, do italiano Luchino Visconti, baseado numa novela do escritor alemão Thomas Mann. “O adolescente por quem o velho compositor (o ator inglês Dirk Bogarde) se apaixona, personifica o andrógino enquanto figura de contemplação estética ambígua”, analisa Xavier. O outro filme é Teorema, do também italiano Pier Paolo Pasolini. Uma espécie de anjo exterminador (o ator Terence Stamp) seduz todos os membros de uma família burguesa conservadora. Um dos marcos da literatura moderna, Orlando, da instigante escritora inglesa Virginia Woolf, a longa narração da vida de uma personagem ora homem, ora mulher, foi levado ao cinema pela diretora inglesa Sally Potter. Convém não perder, pois qualquer que seja o resultado, o filme será mais fácil de ver do que o livro de ler.

O inconsciente humano sempre conviveu com uma certa confusão entre os dois gêneros. Os escultores gregos clássicos fundiam feminino e masculino de tal forma que, não raro, os restauradores modernos equivocaram-se reconstruindo efebos (rapazes adolescentes) como se fossem moças. Nos antigos baixos-relevos da Índia, da mesma forma, quase não há separação por sexo; afinal, divindades precisam ser completas, não teria sentido empobrecê-las fazendo-as masculinas ou femininas. Os pintores também criaram mulheres e homens com jeito andrógino. “Todas as figuras masculinas do clássico italiano Leonardo Da Vinci (1452-1519) são femininas e até mereceram um estudo de Freud”, lembra a pintora e professora de desenho Ely Bueno, de São Paulo. “Os homens e mulheres de Marc Chagall (1877-1985) apresentam ambiguidades de gênero. O contemporâneo americano Andy Warhol (1927-1987) fez uma Marilyn Monroe que é ele próprio. Hoje, o ótimo cuiabano Humberto Spíndola faz figuras andróginas. São apenas alguns poucos exemplos”, garante a pintora.

Na indústria da moda, os modelos andróginos têm sido requisitados para protagonizar campanhas de grandes grifes. Em alguns casos, os modelos posam com um look que reproduz tanto a coleção masculina quanto a feminina.