Até o Tucupi de Rodar na Bica! Respeite as maninha que são travesti!!

1351975127travestis370x211As travestis e mulheres trans no Brasil nunca foram consideradas sujeitos de direito. É só analisar os privilégios cisgêneros e suas atitudes transfóbicas para com essa comunidade tão marginalizada. Se a sociedade é divida em classes sociais as travestis e transexuais pertencem ao nicho das margens sociais. A transfobia é tão naturalizada e inquestionável no mundo cisegênero que travesti e mulher transexual vão ser lembradas como prostitutas, farsantes de gênero e criminosas. Os dois únicos direitos de uma travesti é o de se prostituir e o de ser morta. Mais de 90% dessa população está se prostituindo e não existem políticas públicas que mude essa realidade. Acredita-se ainda que travestis e transexuais se prostituam porque querem, e sabemos que isso é uma falácia na realidade dessas meninas. Se 90% estão se prostituindo, com certeza menos de 1% talvez se prostitua porque queira, contudo a prostituição acaba sendo uma imposição para a maioria delas. A realidade das travestis e mulheres trans é de pura desumanização, desde a externalização, que começa muito cedo, geralmente 13,14,15 anos, até suas mortes, que giram em torno dos 30 aos 35 anos. Essas meninas não são aceitas em suas famílias; são expulsas diretamente ou indiretamente.

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travestis na pistaDos depoimentos que já ouvi, li e assisti sempre nos contam a mesma coisa: que foram espancadas demais por seus pais e irmãos, foram estupradas por amigos da família, que foram expulsas de casa cedo e não tiveram aceitação de ninguém, nem da família e nem da escola. Ousar quebrar as regras de gênero cis-hetero-normativas é pagar o preço pelo resto de suas vidas. O simples ato de assumir-se travesti é proibido. A escola que devia ser um lugar de pluralidade e discussões em torno das diferenças, acaba sendo um lugar hostil para travestis e transexuais. A travesti não sofre bulliyng apenas dos colegas de turma e dos estudantes da escola em geral, ela é oprimida pela professora, pela gestora e demais funcionários. É negado a ela o direito de sua própria humanidade. Se ela se identifica como mulher e quer ter seu nome social reconhecido, a escola vai fazer questão de não reconhecer, ela não vai poder usar o banheiro feminino, será incumbida de usar o banheiro masculino, cortar os cabelos, usar o fardamento masculino e ser chamada pelo nome civil. Obviamente que ninguém aguenta tantos abusos e absurdos, ainda mais quando se tem 13, 14, 15 anos. Se a travesti não tem lugar na escola e nem na sua própria família, o único meio para ela se sustentar será a prostituição. Evidentemente que muitas vão procurar emprego, mas o mercado formal de trabalho não aceita travestis e transexuais, ainda mais com o ensino fundamental incompleto. Se é difícil para uma travesti e transexual com graduação e pós-graduação conseguirem emprego em suas áreas de formação, imagine para uma que não pode concluir os estudos como qualquer pessoa cisgênera hetero, gay ou lésbica. Então a prostituição vai ser o único caminho mais acessível de ganhar dinheiro, e para muitas dessas garotas esse caminho é doloroso, pois elas vão acabar se tornando apenas corpos sexuáveis, objetos de fetichizações e estarão suscetíveis a qualquer tipo de abuso e morte tanto da segurança do Estado como das pessoas civis. E para se manter na pista elas precisam ter o corpo da prostituição, ou seja, um estilo a la panicat: bundão, peitão, pernões, etc., e o meio mais fácil e de custo valor para se ter todos os atributos da prostituição é ter no seu corpo injetado o famoso silicone industrial. O silicone industrial não foi feito para corpo humano, é um tipo de óleo lubrificante para peças de automóveis.

Para mim quem está na faixa dos 13 aos 15 anos são crianças. E uma criança, praticamente semianalfabeta, sem família e amigos cujo destino é a prostituição, não parece comover ninguém. E muitas acabam sendo traficadas para os grandes centros metropolitanos, geralmente São Paulo.  Já ouvi de muitas pessoas cis que “travesti se prostitui porque quer e gosta”. E o mais triste da realidade de uma travesti e transexual é que elas nunca são respeitadas. É apenas um objeto estranho. Geralmente as pessoas do senso comum pensam que a travesti é um supergay que decidiu “querer ser mulher”, e a transexual, quando foge dessa ideia, é a louca que “virou mulher” (no caso de ela ser transgenitalizada). Então o processo da transfobia começa muito cedo. E uma travesti e transexual nunca tem acesso às informações sobre suas identidades, então geralmente muitas acabam reproduzindo a própria transfobia enraizada que diz que homem nasce homem e mulher nasce mulher. Muitas travestis e transexuais acreditam serem homens gays que querem ser mulher, ou seja, a reprodução do mesmo discurso transfóbico que as perseguiram desde o primeiro momento que elas falaram: “sou travesti”, “sou uma mulher trans”, “sou mulher”.

Daniela Andrade, ativista política dos Direitos Trans no Brasil, fez uma análise muito óbvia da mídia brasileira em relação às travestis e transexuais. Ela diz que as travestis aqui no Brasil morrem duas vezes; quando é assassinada e quando o próprio jornalismo mata pela segunda vez noticiando como se fosse morte de um homem gay que vestia trajes femininos, enfatizando o nome civil e se referindo como “o travesti”. E a mídia vai se lembrar de travestis e transexuais por cinco motivos:

  1. Criminalizar: somos todas criminosas;
  2. Patologizar: somos todas doentes mentais;
  3. Exotificar: somos seres “diferentes”;
  4. Ridicularizar: somos motivos de risos, piadas, deboches;
  5. Hipersexualizar: somos máquinas de fazer sexo.

E como dito, a média de vida de uma travesti é de 30 a 35 anos. E infelizmente o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo todo. Elas são assassinadas com requintes de crueldade. São estupradas, mutiladas, algumas tem a genital cortadas, levam várias facadas ou tiros e são achadas geralmente em terrenos baldios, matagais e córregos.

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E depois de tudo isso, de uma realidade totalmente desumanizada, as pessoas cisgêneras se acham no direito de dizer quem somos culpada de toda a opressão. Somos os travecos, as farsantes de gênero. Simplesmente por a transfobia ser algo tão banal nesse país, artistas acabam se apropriando da nossa imagem e acabam personificando estereótipos transfóbicos. Somos o objeto em questão para motivos de risos.

Em setembro de 2012 a banda manauara Alaídenegão em parceria com o Coletivo Difusão, integrado à Rede Fora do Eixo, lançam o clipe Rodar na Bica que acaba se tornando um hit divulgado por alguns blogs nacionais de música. A banda coleciona músicas machistas, misóginas, transfóbicas, de assédio e fazem apologia ao estupro. E Rodar na Bica, que é um hit totalmente dançante, não sai perdendo, não. A transfobia é gratuita. Vejam e ouçam o videoclipe Rodar na Bica. 

Ta se arrumando
Vai se perfumar
Corre pro Armando
Tá querendo armar

Vai rodar na bica!

Compra uma cerveja
Bebe no balcão
Flerta com o gringo
Não quer dormir no chão

Vai rodar na bica!

Dança com um traveco
Quer se divertir
Pensa que é mulher
Não é mesmo assim

Para quem não sabe a Bica é uma banda de carnaval do boêmio Bar do Armando localizado no Centro de Manaus. Segundo um dos integrantes da banda diz que rodar na bica significa festejar o carnaval na Banda da Bica. A música tem duplo sentido já que o carnaval da Banda da Bica é um lugar onde se encontra todas as gozações humanas de mau gosto, como estereótipos racistas, transfóbicos, homofóbicos, machistas e misóginos. Gente branca fazendo blackface, homem cis se fantasiando de mulher, mulheres sendo assediadas, etc.

Interpretando a letra e percebe-se o chorume transfóbico gratuito. “Ta querendo armar” como se a travesti quisesse enganar os homens que ela é uma mulher, ou seja, a música diz que ela é uma farsante de gênero. E ela “vai rodar na bica!” em duplo sentido, pois será assediada por todos os homens. Depois a banda faz chacota do homem que dançou com a travesti, porém eles utilizam o termo “traveco” e ainda enfatizam que a travesti não é mulher. Como a masculinidade do homem é muito frágil, eles se importam se vão saber que ele dormiu com uma travesti ou não. No carnaval brasileiro a transfobia é muito comum. Costumam dizer para os homens cis terem cuidado, para não beberem demais, se não vão acabar pegando “um traveco”.

O termo traveco por si só é pejorativo. O teor da música mexe com a dignidade de qualquer uma travesti e transexual e elas ainda ganham de brinde uma música que desenha a imagem de que ser travesti não passa de uma piada, algo proibido e afirmam que por mais que se pense em ser uma mulher não será mesmo assim. No clipe todos dançam felizes a transfobia inquestionável. E quando você ousa a questionar o papel artístico, a transfobia gratuita e o cenário cultural local, você é acusada de estar fazendo juízo de valor, porque só você vê transfobia naquilo. E há tempos que Manaus coleciona casos entre os artistas de machismo, misoginia, transfobia e homofobia. O que é mais comum é tentarem silencia-la e fingir que nada está acontecendo, além do mais todos são amigos. E o pior que muitas mulheres estão no meio disso e silenciam o óbvio do machismo na cultura local. E eles e elas adoram dar uma de libertários, serem a favor da paz e do amor, dizem-se Guaranis-Kaiowás e adoram se apropriar da cultura negra e indígena por mais que a maioria deles sejam brancos cisgêneros e de classe média, ou seja, pessoas privilegiadas que desconhecem a vivência de qualquer minoria em direitos, principalmente a da travesti.  Costumam dizer que oprimido acaba sendo opressor quando desconhece a “dificuldade” que uma pessoa desinformada tem e no final nunca se reconhecem como privilegiados, porque para eles todo ser humano sofre e todos nós somos iguais. Afirmam que todo meu discurso é vitimista e que meu ativismo é opressor.

“O Festival Até o Tucupi chega em sua 10ª edição no ano de 2015, apresentando o tema RESPEITE AS MANINHAS! Em sua programação artística e de formação o festival procura fortalecer a representatividade e valorizar a mulher no cenário cultural amazonense e do Brasil, destacando a importância do debate da problemática do cotidiano feminino.” – Coletivo Difusão

A contradição é escancarada quando a temática é #RespeiteAsManinhas e ao mesmo tempo convidam para abrir um festival, de cunho “feminista interseccional”, uma banda transfóbica que em nenhum momento resolveu se retratar sobre o famoso hit Rodar na Bica. Ao mesmo tempo em que elas deixam a banda tocar, dá-se as maninhas trans uma pseudo-representatividade, o que vai tornando tudo mais contraditório. Para quem não sabe vários coletivos da Rede Fora do Eixo estão envolvidos em polêmicas desde exploração similar a trabalho escravo, silenciamento de vítimas e omissão de abusos, fora os acordos com os partidos PT e PCdoB. Eles vivem fazendo campanha para o governismo da Dilma, a mesma que vetou mulheres trans e travestis da Lei do Feminicídio, que sucateou as universidades federais e fechou com o agronegócio. As parcerias do Coletivo Difusão vão desde as representações estudantis pelegas como UNE, UBES, UEE e UJS a vinculações partidárias diretas com o PT e PCdoB. Eles já mantêm um diálogo direto com a prefeitura de Manaus que é PSDB, da qual sempre proporcionam apoio financeiro nos editais de cultural apara eles do Coletivo Difusão.

O Movimento de Mulheres Olga Benário é um segmento feminista dentro do PCR que é um partido que busca um revisionismo histórico da trajetória política de Josef Stálin no comando da extinta União Soviética. Eles seguem a linha ideológica marxista-lenista e se afirmam como um partido político de extrema-esquerda.

Eu já tive uma vivência no Coletivo Difusão por quase 30 dias e lá pude ensinar o que era uma identidade de gênero e meu sentimento de angústia pela música Rodar Na Bica. Explicitei para as meninas da casa que eu não tive apoio de nenhum movimento cultural de Manaus. E em nenhum momento a banda se retratou diante da minha postagem em que eu dizia o porquê que Rodar Na Bica era uma música transfóbica. Isso vai fazer um ano desde o lançamento do último álbum deles e, nenhum artista e banda local tiveram empatia pela minha causa.  Só depois pude entender o porquê que o Coletivo Difusão não deu uma visibilidade ao meu repúdio, porque Alaídenegão tem uma parceria com a Rede Fora do Eixo. E sobre a participação do Movimento de Mulheres Olga Benário (PCR) só tenho a lastimar, porque essa mesma organização partidária que combate a luta de classes, esquece que há um recorte de opressões dentro dela, como o racismo, machismo, transfobia e homofobia. E não efetuam a importância de políticas reformistas para com as minorias sociais que estão à margem por conta da cor, etnia e identidade de gênero. Passar por cima de nossas vivências é silenciar-nos. E é comum em partidos de esquerda pautar apenas as lutas de classe, querendo aboli-las, acreditando assim que os males insuperáveis da humanidade acabarão. Um negro sendo rico não vai deixar de sofrer racismo. Uma travesti rica não será isentada de transfobia.

Quebrar os paradigmas machistas é essencial para que não se perpetue uma cultura de opressão. Mas tudo tem de ser levado a sério e não como uma pseudo-causa. As causas sociais devem andar juntas com os movimentos culturais. O Amazonas tem uma tradição machista muito forte, como as histórias do boto ligadas à cultura do estupro. Os próprios movimentos artísticos incorporam isso seja nas letras das músicas ou em ações cotidianas, perpetuando, assim, a cultura machista. Dentro desses movimentos culturais o ativismo político dos movimentos sociais não é válido. E o meu ativismo político questiona todos os paradigmas entre o machismo cultural e a arte. Porém, os objetivos artísticos da cultura local tem caráter lucrativo, isto é, eles não podem quebrar parceria com banda tal só porque foram “acusados” de transfobia. As exigências dessas bandas e artistas não possui compromisso social verdadeiro, e possuem princípios pseudo-revolucionários. Walter Benjamin já dizia que as artes deviam ter um caráter revolucionário e não princípios fascistas. Eu sei que fascismo possui outro caráter que não cultural, mas, sim, ideológico. A desconstrução, reconhecimento dos preconceitos, e a construção de novos princípios não preconceituosos, é o caminho para se fazer a arte livre de estigmas negativos.

#NãoVouRodarNaBica #RespeiteAsManinhaTravesti

Não faria esse texto sem ajuda e apoio das queridinhas Maria Moraes, Jéssica Dandara, Rafaela Bastos e Tamily Frota. Grata, gatas!!!