Infância proibida e o T da questão

Pure heroin

Há tempos desde o início da minha transição minhas amigas e amigos me perguntam o por que do meu mau humor. Eu, Diana, acho que sempre fui mal humorada. Pra não dizer que meu humor é “negro” prefiro dizer que ele é gótico ou ácido.

Posso dizer que tive a pior das infâncias. Não falo que foi a pior das piores. Mas eu nunca pude ser quem eu era. Sofri N’s bullyings por ser um* garoto* diferente da cis-hetero-normatividade. Eu não cumpria o papel social de um menino. Meus pais cobravam de mim, por pressão de terceiros, a masculinidade do homem viril. No início não se entende muita coisa ou não se entende nada sobre quem realmente somos.

Eu me sentia uma garota desde que eu me entendia por gente. Eu devia ter uns 5 anos quando eu vim dar conta que existia uma realidade ao meu redor, por mais que eu duvidasse dela. Se nem meu papa e minha maman me entendiam quem dirá os outros parentes e estranhos. Maman e papa deviam ter vergonha de mim. Apanhei da maman algumas vezes ou várias vezes [não quero recordar] por parecer um “viadinho”. Ela se questionava o tempo todo onde tinha errado. O papa disse que à época ela acabou culpando-o por eu ser “assim”.

Eu tinha vergonha de sair de casa com a maman por medo de ela ouvir alguém me xingar. Ela podia até me defender, mas quando estava ela e eu apenas, me brigava sem parar, culpava-me. Então eu já não contava com o apoio dela nem do papa. Quando os outros implicavam comigo no colégio eu não podia falar pros meus pais porque eu era a culpada. Então eu percebi que realmente eu estava sozinha no mundo, até mesmo sem Deus. Eu pedia pra Deus me “endireitar”, tornar-me homem mas ele não ouvia minhas preces. Nesse meio tempo dos 5 aos 13 anos de idade ocorreu de eu tentar me matar algumas vezes por não me parecer com as meninas, as minhas amigas. Isso doía muito. Teve algumas vezes que eu tentei cortar o meu pênis mas eu sempre desistia.

Minha infância até a pré-adolescência foi povoada por fadas, elfos, dragões, príncipes, princesas, rainhas, duendes, sereias e heróis. Esses personagens de contos de fadas e histórias em quadrinhos eram a minha diversão. Eu acreditava realmente que as fadas nunca me abandonariam se eu não deixasse de acreditar nelas. Porém, eu cresci e com meu niilismo tudo se esgotou.

Desde criança até a fase adolescente fui acompanhada por duas babás. Eu conseguia contar algumas coisas pra elas. Elas me deixavam experimentar, às escondidas da minha maman, o universo feminino. Eu usava as camisolas e os sapatos da maman, colocava um lençol ou uma toalha de banho na minha cabeça e fingia ter cabelos longos. As minhas babás contaram que eu tinha uma repulsa das coisas tidas como masculinas e que eu pensava ser uma menina. Isso era eu com meus 3/4 anos.

Eu realmente sentia estar num corpo errado porque as pessoas o tempo todo diziam que eu não podia ser mulher já que eu nasci homem. Eu só vim questionar realmente minha identidade de gênero no meu colegial. Fui lendo aqueles textos científicos que patologizavam a transexualidade. E realmente eu acreditava naquilo tudo: que homem nasce com pênis e mulher com vagina. Quando entrei pra Filosofia na Universidade Federal do Amazonas meus horizontes foi mudando aos poucos, mas não foi por conta da faculdade mas pelo contato que eu tive com a militância de outras mulheres trans e travestis na web. Minhas primeiras inspirações foram Daniela Andrade, Sofia Favero e Maria Clara Araújo, aí eu resolvi assumir minha identidade de gênero como mulher trans também. Depois fui conhecendo dentro da Filosofia a corrente da Teoria Queer que questiona seriamente gênero, sexualidade e corpos. As meninas ativistas trans já tinham me dito que não se nasce homem ou mulher, mas que torna-se. Não nascemos no corpo errado.

Se tem uma coisa que fui desde criança foi “carente”, nunca ganhei amor dos meus pais como realmente eu queria. Eu não era o* filho* dos sonhos deles. Então eu pensei que era amaldiçoada por ser tão infeliz. Às vezes ainda penso isso quando tudo dar errado pra mim. Meus pais gostavam de mim só que de uma forma diferente. Eu sei que eles me amam, mas devem temer muitas coisas por que sou transgênera. Então tive que me dar com a rejeição desde a infância até hoje. Atualmente piorou. Eu não tive a mocidade dos sonhos. Eu não participei da vidas das garotas, por mais que eu detestasse muitas coisas que elas assumiam devido às imposições do patriarcado. Logo sempre fui uma garota diferente. Feminista? Não sei. Feminista hoje? Sim.

As duas faces de estar na transição é que não sabemos quando realmente transformamos nossos corpos. Ao menos pra mim tudo está imperfeito. Isso fica evidente com o tratamento que recebo das pessoas cisgêneras. Elas estão o tempo todo me tratando no masculino. Não sei se realmente estão me vendo como homem. Estar na fase de hormônio-terapia é como estar numa eterna TPM. Fico muito sensível ao modo como me tratam e ao mundo como ele é. O pessimismo sempre esteve comigo nas piores fases da minha vida. Depressão e melancolia idem. E tudo é causado pelos hormônios e pela pressão social (diga-se ‘transfobia’).

Digo que as rejeições aumentaram porque sempre vou ser o fruto proibido que nem a maçã que causou a expulsão de Adão e Eva do Jardim do Éden. Uma das coisas que às vezes ainda consigo criar são expectativas com os homens cis-héteros. Se você se apaixonar por qualquer um homem cis-hétero pode contar que você será humilhada ou ele irá querer tê-la como mais uma amiga dele. E você observa que esse mesmo cara é pegador. Ele pega todas as mulheres que ele considera de verdade. A mulher com vagina serve para afirmar a heterossexualidade do macho-alfa. Ele pode sentir atração por você mas ele não vai querer sujar a reputação máscula de machão dele. Se ele não souber que você é trans ele vai ser o mais romântico dos homens. Quando ele descobrir que você é trans ele vai te tratar como amiga, ou como objeto sexual ou vai te deletar da vida dele. Se ele conhecer uma amiga cis tua ele vai ficar afim dela. Aí você vai perceber que não será bem sucedida em quaisquer relações com esses tipos de homem. Infelizmente eles estão em todos os lugares. São artistas, esquerdistas, ativistas sociais, libertários, anarquistas, etc. Quando você pensar que um deles tem mente aberta, então você é rejeitada pela milésima vez só porque você é trans. Os homens desejam nossos corpos mas se bloqueiam quando o machismo pessoal deles e dos outros os fazem repensarem nos princípios cissexistas sociais e nos seus status quo de homem garanhão e viril. É como eu digo, a heterossexualidade desses caras devem ser provadas com uma vagina de fábrica e não o contrário, ou seja, uma mulher com pênis ou com uma neovagina.

A práxis cisnormativa exclui as pessoas trans da sociedade, principalmente as travestis e mulheres trans. A sociedade vai dizer que você não é mulher e que tampouco tem direito ao amor, que você tem apenas o direito de se prostituir e ser morta. O que perpassa além disso nas nossas vivências é uma infância reprimida, depressão, solidão, transfobia, hipersexualização dos nossos corpos e constante rejeições.

Eu, Diana Brasilis, apesar de não ter a beleza cisgênera, e sim uma androginia natural, sou elogiada não só por homens, mas por mulheres. Obviamente que quem não me conhece vai dizer que sou um “rapaz” muito bonito quando eles percebem em mim essa minha androginia estética latente, e eu estou falando das pessoas comuns. Já os homens héteros ficam me objetificando e desejando me ter nem que seja por alguns minutos, contudo o machismo não vai deixá-los seguir em frente com qualquer tipo de desejo que eles tiverem por mim. Obviamente que eles me veem como mulher só que eles pensam que eu seja um homem supergay que quer ser mulher. A sociedade diz que a travesti são homens gays montados. A condição trans pesa na hora de assumir qualquer desejo por mim em público. Na internet eles pedem nudes ou mandam nudes e marcam sexo às escondidas. Toda essa minha vivência condicionada em rejeições mais à TPM dos homônimos e ao mundo como tal faz com que eu entre em depressões surreais. Logo vou ser a mais antipática, temperamental, deprê das amigas.

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